José Joaquim Teixeira Lopes

Vida e obra do Escultor e Fundador da Quinta Vila Rachel

TrisavôJosé Joaquim Teixeira Lopes, mais conhecido como Teixeira Lopes Pai, nasceu em S. Mamede de Ribatua, Concelho de Alijó, em 1837, filho de viticultores. Foram seus avós paternos Manuel Teixeira Lopes e Ana Lopes e maternos Joaquim Lameiras e Águeda Cardoso, todos de S. Mamede de Ribatua. A família era numerosa: José Joaquim Teixeira Lopes teve pelo menos onze irmãos.

Desde rapazinho se sentiu irresistivelmente atraído pela arte e, sem nunca ter tido aprendizagem prévia, nem conhecido esculturas de valor, esculpia em madeira, com uma rara habilidade, imagens ingénuas, muitas das quais revelam inesperada expressão religiosa. Algumas destas imagens existem ainda hoje em S. Mamede de Ribatua e em várias igrejas do Concelho de Alijó e de Carrazeda de Ansiães.

O pai, reconhecendo a vocação artística do filho, conseguiu que este se tornasse aprendiz no ateliê do Professor Manoel da Fonseca Pinto (1802-1882), no Porto, escultor mediano, mas bastante conhecido, que dirigia, nos estaleiros de Gaia, os trabalhos de escultura que decoravam as proas dos navios de grande tonelagem. Aos treze anos, assim, José Joaquim Teixeira Lopes iniciou a sua aprendizagem artística (1850), entalhando com um machado as figuras esboçadas pelo Professor. Era um trabalho duro e difícil , mas que lhe permitiu aprender, ao longo de seis anos, os rudimentos da profissão.

Em 1856, Teixeira Lopes voltou para a terra natal onde prosseguiu a realização de imagens religiosas. No ano seguinte, casou-se com a sua prima Rachel Pereira de Meireles (1841-1912), filha de António Pereira Júnior e Maria da Conceição Meireles, proprietários. Foram seus avós paternos João Pereira Lopes e Maria José Rabacinho e maternos António José de Meireles e Quitéria Rosário Cardoso, todos de S. Mamede de Ribatua. Foi um casamento de amor que durou cinquenta e cinco anos e em que a dedicação mútua do casal foi constante e reconhecida por toda a família e amigos.

Teixeira Lopes sentia a necessidade de se instruir e decidiu regressar ao Porto, para encetar estudos sérios. Em 1860, o casal vendeu o dote de casamento, uma propriedade, e fixou-se no Porto, onde se instalou numa pequena casa da Rua 23 de Julho ( atual rua de Santo lldefonso ). Durante quatro anos, estudava de dia desenho com o Professor João Correia, da Academia de Belas Artes do Porto, afamado mestre de desenho e, para sustentar a família, trabalhava de noite, esculpindo pequenas imagens que vendia a preços baixos. Foi igualmente aluno de Francisco José Resende na Academia Portuense de Belas Artes, tendo sido considerado um dos alunos mais distintos.

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Em 1864, finalmente, a sua carreira deu um enorme passo em frente, ao lhe ser entregue a execução da estátua de D. Pedro V, que se ergue na Praça da Batalha, no Porto. É uma obra estimável que tornou conhecido e apreciado o jovem artista, ainda simples estudante de desenho.

Como consequência, é condecorado com a Cruz de Cristo e obtem uma bolsa da Sociedade Madrépora, do Rio de Janeiro, para aprender escultura em Paris. Aí, as lições do notável escultor François Jouffroy desenvolvem rapidamente as suas capacidades e conhecimentos técnicos. Quando concluiu a estátua “A União faz a Força”, o seu Mestre gaba-lhe os méritos da sua obra e os progressos conseguidos, demonstrando-lhe elevada estima.

 Em 1864, concorreu para o monumento a D. Pedro IV, que Anatole Calmels ganha, e em 1869 ao grande concurso de escultura aberto de três em três anos pela Academia de Belas Artes, cujo programa exigia o tema “O Filho Pródigo”. José Joaquim Teixeira Lopes ganhou o primeiro prémio, suplantando os numerosos concorrentes. O trabalho, que teve sucesso na época pelas suas notáveis qualidades, levou o júri a conceder-lhe a honra de expor a estátua durante longos anos na galeria escolar.

Em 1865, José Joaquim Teixeira Lopes retomou os seus trabalhos de ceramista: alugou nas Devesas (Gaia) um terreno onde construiu uma oficina com um forno. Começou a reproduzir em cerâmica algumas das suas obras (como a estátua “A União faz a Força”), assim como figuras de costumes em barro pintado e  vasos ornamentais por si criados.

A Fábrica de Cerâmica das Devesas , de que foi sócio durante quase cinquenta anos é fundada nesta data. António Almeida da Costa, mestre-canteiro, homem de negócos sagaz e de grande tenacidade, encarregou-se da Direcção Comercial da Fábrica, ficando José Joaquim Teixeira Lopes com a responsabilidade técnica e artística. Através de porfiadas experiências sobre argilas e vidros, rapidamente conseguiu garantir uma produção cerâmica original e diversificada, tornando-se a Fábrica uma das principais da península no seu ramo de atividade. A Fábrica de Cerâmica das Devesas dedicou-se ao fabrico de cerâmica de construção de todos os tipos: azulejos para revestimento de paredes interiores e exteriores, mosaicos hidráulicos para revestimento de pavimentos, telha de Marselha, estudada em França e introduzida em Portugal em 1880, pelos dois proprietários da Fábrica.

Com os seus recursos de ceramista hábil, o escultor encontrou na união da arte e da indústria um imenso campo de trabalho. A escultura cerâmica tinha já adquirido uma importância notável em Gaia, única no país, tendo sido área de actividade de todos os seus escultores, ilustres ou modestos.

Fabrica Cerâmica das Devesas - Escultor teixeira Lopes

José Joaquim Teixeira Lopes foi o continuador desta indústria na Fábrica das Devesas, desenvolvendo-a e modernizando-a através das modalidades decorativas variadas que o seu génio soube criar. Concebeu diversos objectos ornamentais em faiança, tais como jarras, vasos, taças (algumas tipo Majólica ), pedestais, colunas, mísulas e plintos, caixilhos, medalhões (alguns tipo Wedgewood), animais (leões, cães); em terracota, estátuas de figuras mitológicas (Marte, Minerva) ou simbólicas (Indústria, Estio, Progresso). Dedicou-se também à pintura de azulejos sobre os temas mais diversos (paisagens, cenas pastorais e reprodução de gravuras rústicas francesas).

José Joaquim Teixeira Lopes foi, na área das figuras de terracota polícromas representando tipos e costumes populares, o digno sucessor dos Mestres do século anterior António Ferreira e Machado de Castro.

Logo no início da sua vida artística, o Escultor vendia, nas feiras de Matosinhos e Gaia, as figuras de terrracota que ele tinha modelado, cozido e pintado nos momentos roubados às horas de estudo e de trabalho constantes. A observação e estudo das figuras das ruas, humildes e populares, dos tipos locais e das cenas da vida rústica, movimentadas e anedóticas, levaram-no à produção de pequenas obras-primas do género.

Apesar do sucesso, o Escultor continuou a ser um homem modesto e desinteressado, que só usava a sua influência para fins sociais e artísticos de relevo.

Em 1881, demonstrando rara visão e, num gesto de grande impacto educativo e dimensão social que muito o dignificou, criou a Escola Nocturna, que funcionou na Fábrica das Devesas durante três anos e onde se ensinava desenho e modelagem. Vários futuros artistas, entre os quais sobressaiu Joaquim Gonçalves, que mais tarde se distinguiu pelos seus trabalhos decorativos, lá começaram os seus estudos. A Escola Nocturna teve tanto sucesso que deu origem à Escola Industrial de Passos Manuel em Gaia.

Na sua aldeia natal, por sua iniciativa e de António Lopes Agrelos, foi restaurada em 1902 a Igreja Matriz, conforme atesta uma placa afixada na parede exterior do terreiro da mesma.

Teve dois filhos (António, um dos maiores estatuários portugueses, 1866-1942), e José, arquitecto de renome (1872-1919) e quatro filhas (Adelaide, casada com Albino Barbosa, pintor que colaborou com António Teixeira Lopes e fez um retrato a óleo de José Joaquim Teixeira Lopes, Emília, casada com Adelino Sá Lemos, que colaborou com José Joaquim Teixeira Lopes e fundou uma fundição de bronzes, Maria Raquel, casada com Abílio Rocha, e Elisa, casada com Alberto Rocha).

teix-024-cópiaA sua casa de Gaia foi herdada e ampliada por seu filho António, também Escultor, com projecto de seu irmão, constituindo actualmente a Casa-Museu Teixeira Lopes, onde uma sala é dedicada à exposição de obras de José Joaquim Teixeira Lopes. O mesmo filho igualmente projectou, nos finais do século XIX, a casa da sua Quinta Vila Rachel em S. Mamede de Ribatua, que também veio a pertencer a António Teixeira Lopes e está actualmente na posse de descendentes de José Joaquim, que já constituem a 6ªgeração. 

Nas suas casas acolhia amigos e conhecidos com a tradicional hospitalidade alto-duriense, sendo generoso com os pobres que a elas acorriam.

O Escultor faleceu em 1918, em Gaia, na presença dos filhos e netos, tendo sido imensas as pessoas, das mais humildes às personalidades políticas, aristocráticas e artísticas, que quiseram demonstrar o seu pesar.

Encontra-se sepultado na Capela-jazigo do cemitério da família em S. Mamede de Ribatua, junto da esposa Rachel, do filho António, do neto José Marcel e de outros familiares.

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